O Futebol como meio de transformação de jovens

No Brasil, o Futebol é um fenômeno esportivo realmente diferenciado. Basta analisarmos o que aconteceu durante o período em que a nossa seleção estava disputando a Copa da África do Sul: o país parou como nunca havia parado antes, a não ser em outras Copas do Mundo. No setor público havia suspensão do trabalho; as empresas privadas dispensavam os funcionários mais cedo ou liberavam todos os empregados para assistirem onde quisessem e depois retornarem ao trabalho. Nas grandes cidades era feito um esquema de transporte coletivo que atendesse às necessidades exigidas em horário de pico, entre outras adaptações realizadas no período. Tudo isso para que todos pudessem assistir aos jogos da Seleção Brasileira.

O tema principal em discussão nas escolas de Ensino Fundamental e Médio também foi o futebol, pois, qual o assunto que mais chama a atenção da criança e do jovem nessa época? Por toda parte se viam pessoas trocando figurinhas, pois todos queriam estar com o álbum completo para quando chegasse a Copa. O gosto pelo futebol é uma cultura que vem de berço: quando a criança nasce, os pais já compram a roupa do time preferido para vestir o filho, sem nem saber se o pequeno vai torcer por algum time. Mas na maioria dos casos isso funciona! Nas tardes do domingo, o principal programa da maioria das famílias brasileiras é assistir o futebol pela televisão, mesmo quando o jogo que está passando não é o da equipe do coração. O importante é que está passando futebol. E, quando por algum motivo não tem jogo naquele dia, é comum ouvir: “hoje vai ser uma porcaria, não tem jogo na TV!”.

Estes são apenas alguns dos exemplos de como o Brasil reage quando o assunto é futebol. Sendo este um esporte de massa em nosso país, entre os Deficientes Visuais não poderia ser diferente. É a modalidade que mais chama a atenção das crianças cegas no período de escolarização. Porém, principalmente devido ao falho processo de Inclusão, essas crianças acabam não tendo oportunidade de conhecer e se envolver com a modalidade nas escolas e acabam procurando as associações de atendimento especializado onde o futebol é praticado para poderem vivenciar a sua prática.

O Futebol de Cinco, mais conhecido como Futebol de Cegos, começou a ser desenvolvido no Brasil dentro dos Institutos de Cegos de todo país por volta de 1960, quando as pessoas ainda chutavam latas de óleo ou de leite, pois não havia uma bola que fizesse barulho. Mas, aos poucos, foram se desenvolvendo várias formas de se utilizar a bola para jogar: bola do tipo Dente De Leite encapada com tiras de pano com um arame e tampinhas de garrafa para fazer barulho; posteriormente, bola de Futebol de Salão com um couro costurado e uma argola de chaveiro que o transpassava com tampinhas de garrafa amassada; até chegarmos à bola atual, que tem seus guizos internos entre a câmara e o couro, deixando de ser um perigo constante como era antigamente.

Em 1978 foi realizado o primeiro torneio de Futebol de Deficientes Visuais, em São Paulo, que teve a participação de quatro Institutos do país. A partir de 1980 começaram a surgir associações de Deficientes Visuais por todo Brasil, as quais tinham como característica principal a prática do Futebol. Essas associações foram sendo criadas por ex-alunos dos institutos, que queriam continuar jogando bola.

Atualmente, existem 120 associações por todo país, com aproximadamente 4000 atletas, de diferentes modalidades. Porém o futebol continua sendo a modalidade que mais chama a atenção, pois se diferencia dos demais esportes no sentido de que consegue demonstrar o que há de melhor em termos de qualidade e potencialidade.

A importância dessa prática está nos resultados colaterais que ele proporciona para todos que procuram a sua prática. Os jovens começam a interagir com outras pessoas que trabalham em diferentes áreas, difundindo o esporte e a capacidade das pessoas com deficiência visual; reforçar a autoestima, despertando o interesse em estudar e buscar uma profissão interessante. O futebol faz com que os atletas cegos identifiquem e conquistem espaços nos variados grupos sociais e extraiam o máximo de informações para seu próprio desenvolvimento como cidadão portador de direitos e deveres, assim como qualquer outro.

Daí o papel da Associação de Pais, Amigos e Deficientes Visuais de São Bernardo do Campo (APADV): estimular, orientar, encaminhar e acompanhar todo processo de desenvolvimento desses jovens visando formar pessoas socialmente bem sucedidas, superando àquela imagem estereotipada de limitação para vencedor, atrelando a esse título todas as referências benéficas que uma pessoa pode apresentar.

Ivan Oliveira Freitas
Presidente
APADV - São Bernardo do Campo