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Cinco dicas para criar espaços de aprendizagem que levam à mudança

 

Quando Vishal Talreja iniciou as atividades do projeto Dream a Dream com amigos em 1999, era mais motivado pela paixão do que pela experiência em educação ou desenvolvimento. Mas depois da experiência transformadora e impactante de trabalhar com crianças HIV-positivas nos abrigos da Índia, sentiu a real necessidade de colocar em prática sua empatia com uma ação consistente. 

 
Inicialmente, Talreja percebeu que o sistema de abrigo tinha que oferecer muito mais do que um refúgio, já que os jovens voltariam às ruas quando deixassem aquele espaço. Isso se dava, sobretudo, porque não tinham capacidade de trabalhar em equipe, comunicar-se eficazmente e sentir a verdadeira sensação de autossuficiência. Desde então, o Dream a Dream tem desenvolvido uma modelo de aprendizagem que está mudando a percepção das pessoas em relação às crianças em situação de rua - e também como essas próprias crianças se percebem. 
 
As ondas de inspiração geradas pelo programa estão começando a transformar a sociedade de castas da Índia. O Dream a Dream treina facilitadores adultos para trabalhar com os jovens e, em seguida, constrói parcerias adicionais, trazendo um exército de voluntários comunitários. Todo o trabalho envolvido deve promover e manter espaços seguros que cultivem empatia.
 
As cinco técnicas que Talreja usa para criar esses espaços são:
 
1. Estimular que todos sejam alunos e educadores: As crianças, os facilitadores adultos e os voluntários da comunidade são encorajados a ser tanto alunos quanto professores. Para as crianças, isso significa o reconhecimento de que um par seu também tem dificuldades semelhantes em determinado assunto ou em um jogo, criando uma identificação nos momentos de pedido e oferecimento de ajuda. 
 
Para os facilitadores adultos, isso significa uma sessão de treinamento profunda, que se concentra em sua própria transformação pessoal. Os facilitadores aprendem como construir e definir suas próprias narrativas e visões sobre o mundo antes mesmo de entrarem na sala para trabalhar com os jovens. E, consequentemente, aprendem também sobre eles mesmos.
 
Este mesmo princípio é também essencial para a transformação de voluntários. Voluntários não oferecem simplesmente tempo e habilidades, mas são solicitados diariamente para estabelecer relações pessoais e aprender com as crianças que eles apoiam.
 
Como essas relações se aprofundam, eles começam a se fazer perguntas que catalisam mudanças importantes no entendimento social: "Essa criança poderia ser facilmente o filho ou filha do motorista na minha casa. Se eu dou muito amor, cuidado e respeito a ela, por que eu maltrato tanto o motorista?"
 
2. Construir espaços para reflexão: Dream a Dream incorpora lições de vida sobre o trabalho em equipe e a construção de relacionamentos saudáveis em todos os tipos de atividades em grupo, consolidando-os através de uma reflexão intencional. Se, por exemplo, uma criança aprende princípios de gestão de conflitos durante um jogo de futebol, então ela é estimulada a descobrir como traduzir isto em sua própria vida nas favelas e diante dos desafios que poderá enfrentar com seus colegas ou pais.
 
Após uma reflexão, Talreja recorda que um jovem adulto voltou e disse: "Eu não sei se algum dia serei capaz de mudar a atitude de meu pai quando me batem, mas, agora, pelo menos entendo de onde ela vem. Eu entendo o motivo que o leva a ser tão violento. É porque não tinha ninguém para orientá-lo quando ele era criança."
 
Embora uma criança possa se inscrever só para um jogo de futebol, uma reflexão cuidadosamente guiada depois da atividade pode deixá-la abastecida com reflexões poderosas ao longo de sua vida.
 
3. Jogar ‘dentro’, não ‘fora’: Normalmente, quando você joga um jogo, quem comete um erro é, então, mandado para ‘fora’ do jogo. Isso contém uma mensagem muito forte: “se você não é bom o suficiente, você sempre vai ser jogado para fora da vida". Com isso as pessoas começam a se autointitular: ‘eu sou bom’, ‘eu não sou bom’, ‘eu não sou bom o suficiente’, ‘alguém é melhor do que eu’, o que pode ser bastante negativo. Todo jogo no Dream a Dream exclui o isolamento e, caso cometa um erro, o jovem é estimulado a coordenar ou supervisionar o jogo, quebrando o conceito de vencedores e perdedores.
 
Jogos afirmativos também têm um papel importante. “A Índia é um lugar onde se diz muito ‘não, não, não`, comenta Talreja, “você não pode fazer isso, isso nunca vai dar certo.”  Em vez disso, a organização joga o ‘Jogo do Sim’, onde as pessoas só estão autorizadas a dizer ‘sim’. Essa simples palavra tem um efeito expressivo na crença dos indivíduos em relação as suas habilidades e no ato de ser ouvido. 
 
4. Criar acordos comunitários: Seja em um grupo reunido para eventos esportivos e oficinas de arte ou para projetos de bairro, todos são convidados a criar um acordo comunitário. Crianças propõem e acordam os objetivos da sessão e, em seguida, se estabelecem como vão fazer para garantir que o grupo atinja seus objetivos.
 
Podem ser coisas simples, como concordar em chegar nos encontros na hora certa ou estar cem por cento presente quando uma reunião estiver acontecendo, ou questões mais específicas e práticas,  como “Nós não faremos uma pausa pro banheiro quando uma reunião está acontecendo, então vamos ao banheiro antes de vir à sessão”.
 
Esses acordos também são trabalhados e compartilhados pelos facilitadores para que todos se sintam igualmente empenhados no sucesso da comunidade.
 
5. Questionamento do status quo: “Quando abrimos esse espaço de fortalecimento para alguém, a pessoa também estará pronta para ajudar ao outro", disse Talreja. Mover-se de um estado inicial de aceitar as coisas como são – no qual a pobreza é o destino e o sistema de castas é inabalável –  para um lugar om qu suas ideias têm valor e que você tem a oportunidade de fazer algo na vida é uma coisa poderosa.
 
Por estarem mais conscientes de si mesmos, seus pares e seu entorno, os jovens têm o poder de fazer perguntas que levam à ação, como "Por que a comunidade em que eu vivo está do jeito que está? Como eu posso mudar isso?" Além disso, as crianças têm sido capazes de olhar ao redor e identificar todos os tipos de questões que antes eram apenas pedaços imutáveis de sua realidade. Um grupo decidiu orientar a comunidade a seguir melhores práticas de saneamento. Outro grupo passou a ensinar arte aos alunos da escola da comunidade vizinha Os exemplos são muitos. “Isso é expressão da empatia,” diz Talreja, “que permite que eles sejam agentes de transformação”.
 
Desafio do Changemakers da Ashoka
A empatia já provou ser uma potente ferramenta para a mudança social e o desenvolvimento comunitário em diversas partes do mundo. O desafio ‘Ativando Empatia: Transformando Escolas Para Ensinar O Que Importa’ busca iniciativas que tenham este enfoque! Inscreva o seu programa ou indique algum projeto até 30 de março.