Da Favela para a Moda
“Você consegue ver o invisível!”
É o que disseram a Tête Leal quando ela, surpreendentemente, pagou um empréstimo bancário muito antes do vencimento. O financiamento fora obtido para a construção de um prédio para a cooperativa de costureiras fundada por ela no início dos anos 80.

E é verdade. Ela foi capaz de ver o que mais ninguém viu : o potencial, em uma favela brasileira, para um negócio em alta costura bem sucedido.
Quando a maioria das pessoas pensa em alta costura, elas imaginam modelos esqueléticas de salto alto exibindo visuais chamativos nas passarelas de Paris, Londres ou Nova Iorque. Contudo, é na Rocinha, a maior favela da América do Sul, que alguns desses designs nascem.

Para Tetê, não foi difícil visualizar as possibilidades nas talentosas mulheres que a rodeavam na Rocinha, mesmo em meio aos óbvios desafios de viver em uma área como essa. As associadas à iniciativa que ela fundou, a Coopa-Roca, são mulheres que chegaram à Rocinha vindas do nordeste brasileiro e que tinham grandes habilidades de costura, mas pouca visão de marketing. A maioria das 150 costureiras migrou de lugares atingidos pela seca daquela região, trocando o perigo da fome no campo pelo risco da violência urbana.


Antes de trabalharem na Coopa-Roca, essas mulheres não tinham nem conta bancária, nem qualquer forma de poupança em casa. Também não tinham seguro saúde. A grande maioria delas era dona de casa sem nenhuma renda e com poucas oportunidades para obter independência financeira.
Foi então que Tetê entrou na história delas. Ela era uma arte-educadora e cientista social, e coordenava um programa para crianças, quando recebeu uma doação de retalhos de tecidos.
As mães de seus alunos disseram: “Não dê esse material para as crianças. Em vez disso, nos deixe usá-lo”, lembra Tetê, e elas costuraram colchas e almofadas. Tetê ficou impressionada com as combinações radiantes de cores e o estilo espontâneo, mas notou que os produtos levavam muito tempo para serem produzidos e geravam pouca receita. Ela se deu conta de que era necessário encontrar uma forma de vendê-los também para pessoas de maior poder aquisitivo.
E assim começou a jornada da Coopa-Roca das almofadas de retalhos à alta costura.
Tetê fez contatos no Rio, cidade que estava se tornando parte da cena internacional da moda, para encontrar estilistas que pudessem oferecer aulas pro bono para as associadas da Coopa-Roca com dois propósitos: ensinar as técnicas básicas da produção de roupas e aumentar sua consciência com relação às tendências. Ela conseguiu que fábricas de tecidos de luxo doassem sobras de sua produção. Como as empresas se recusaram a entregar na favela por causa da preocupação com a segurança, um parceiro alemão pagou uma minivan para recolher os tecidos doados, e assim se chegou a uma solução sem custos para a questão do suprimento das matérias-primas.

Rapidamente a Coopa-Roca chamou a atenção. Logo após o primeiro treinamento, as revistas Elle e Vogue escreveram sobre a cooperativa. Assim que seu trabalho começou a aparecer nas passarelas da moda, a imprensa nacional e internacional reconheceu a singularidade e a alta qualidade do trabalho das costureiras, e o valor da marca Coopa-Roca cresceu.
“É uma imensa alegria. É quando sentimos que somos a Coopa-Roca”, diz Marta Moreira de Mesquita, uma costureira mãe de três filhos que é associada da cooperativa há dez anos.

As associações à cooperativa cresceram de oito membros em 1982 até chegar aos 150 membros estáveis de hoje.
As associadas costuram, fazem crochê e patchwork em suas próprias casas, assim não precisam buscar auxílio externo para cuidar de seus filhos. Elas determinam seu volume de trabalho, costuram em seu próprio ritmo e definem seus horários.
Os dedos hábeis das associadas da Coopa-Roca transformaram retalhos de tecidos em uma nova fonte de recursos para elas mesmas e fizeram surgir uma nova percepção social tanto para consumidores como para os que participam do mundo da moda .
Não há nada de invisível nisso. Você pode ver com seus próprios olhos aqui mesmo.


