Entre no Ônibus Mágico: Meninas Ousam Sonhar Grande

MUMBAI, Índia – A menina de doze anos, Pinky Gupta, passa rasgando pela defesa durante um campeonato de futebol feminino em Mumbai, na Índia, e chuta a bola em direção ao gol adversário. Seu rosto cora com a agitação, ela erradia um entusiasmo por sentir seu poder, principalmente porque essa novidade se estende para além do futebol, ajudando-a a romper as limitações impostas a uma menina crescendo nas favelas de Mumbai.

Através do Magic Bus (Ônibus Mágico), uma organização de Mumbai atuante em Esporte para o Desenvolvimento, Pinky está sentindo o gosto de seu próprio poder e vislumbrando um futuro de liberdade e esperança. Sem essa experiência, Pinky provavelmente teria uma vida limitada como trabalhadora, talvez coletando água, cozinhando e cuidando das outras crianças da família.

 

Agora, ela foca em uma profissão, e diz: “Eu quero que meus irmãos e irmãs tenham educação. Eu quero também trabalhar em um escritório.”

 

Era esperado que Pinky se tornasse útil desde muito nova descascando batatas e cortando cebolas para seu pai, um vendedor de bhelpuri (um lanche de rua popular em Mumbai). Em um primeiro contato com o Magic Bus , a maioria dos pais em sua comunidade diria que o lugar de uma menina é a cozinha. Por que razão ela iria querer entrar em um campo de futebol?

 

Eles permitiram que ela participasse no Magic Bus porque a atividade ocupava somente duas horas por semana, durante a tarde, depois de terminadas suas tarefas. Mas logo eles perceberam que as regras do jogo não ficam confinadas ao campo.

 

Através do Magic Bus, Pinky e seus pais estão descobrindo que o esporte não precisa ser um luxo que compete com suas atividades cotidianas de sobrevivência. Crianças que participam do Magic Bus são estimuladas a ousar sonhar em melhorar dramaticamente suas vidas, e a atingir seus sonhos.

 

“O esporte diz respeito a dar a essas meninas o espaço e a liberdade de serem crianças”, explica Alka Shesha, sócia fundadora e gestora do Magic Bus.

 

Matthew Spacie fundou o Magic Bus em 1999, quando trabalhava para uma consagrada agência de viagens em Mumbai. Ele convenceu seus colegas jogadores de rugby do Bombay Gymkhana a ajudá-lo a treinar crianças de rua que ele via jogando do lado de fora do clube, e a levá-las a viagens e acampamentos. “Minha idéia original era permitir às crianças um canal de diversão e recreação”, ele relembra, “mas praticar um esporte também impactou em suas auto-estimas dramaticamente.”

 

Percebendo o poder da combinação entre esporte e desenvolvimento social, Spacie deixou seu emprego em 2001 para iniciar o Magic Bus. Hoje, o programa Magic Bus está se tornando mais focado e metódico, com módulos distintos desenhados para crianças nas faixas etárias de 7 a 9 anos, 10 a 14 anos e 15 a 18 anos.

 

Desde agosto, o Magic Bus está desenvolvendo um programa piloto para expandir suas atividades pela Índia e pela Ásia, iniciando em três estados indianos, onde está franqueando seus programas através de uma academia de “treino para os treinadores”, que empodera jovens para realizarem seus próprios e auto-sustentáveis programas de esporte para o desenvolvimento dentro de suas comunidades.

Como Pinky, Yasmeen Sheikh aponta as sessões no Magic Bus como o que iluminou sua,  na época, ‘vida sombria’. Foi difícil para Yasmeen convencer seus pais a permitir que ela jogasse. No campo, as meninas vestem camisetas, bermudas e meias que cobrem praticamente toda a perna.

 

“Eles queriam que eu jogasse vestida com salwar kameez (roupa tradicional que consiste de uma larga calça, semelhante a uma calça de pijama, amarrada na cintura com um cordão ou cinto e uma túnica de manga comprida), e não com camiseta e bermuda”, ela sorri. E eles estavam muito preocupados por que ela iria “interagir com meninos” no campo.

 

Mas acabaram por aceitar. Hoje, estão satisfeitos em ver a recém obtida confiança e entusiasmo pela vida de Yasmeen. Ela sonha em jogar futebol competitivamente algum dia, exatamente como o time dos meninos mais velhos.

 

Magic Bus envia seus tutores em uma ação de porta em porta para persuadir pais relutantes em permitir que suas filhas integrem o programa. Eles organizam encontros semanais para as meninas, começando com dois meses estabelecendo laços de confiança para conhecer suas opiniões e seus problemas, uma vez que elas tendem a ser extremamente tímidas. Uma gama ampla de problemas é resolvida durante esses encontros, como a tensão entre meninas de diferentes religiões e comunidades étnicas, ou a falta de espírito de time.

 

Os meninos e meninas do Magic Bus jogam futebol juntos porque esse é um esporte menos conhecido do que outros na Índia, o que o torna neutro, explica Shesha. “Os meninos nunca haviam jogado futebol, então eles não têm nenhuma vantagem inicial sobre as meninas. Nós os fazemos jogarem juntos como iguais.”

 

As crianças aprendem importantes lições de vida ao jogar juntas. Os meninos aprendem que eles devem escutar quando as meninas falam – um concreto passo adiante em uma comunidade onde é comum ver maridos alcoólicos batendo em suas mulheres. 

 

Uma dessas meninas, Reema (nome alterado para preservar sua identidade), de 12 anos, veio de uma família tão pobre que eles frequentemente tinham que recorrer  à caridade dos templos para conseguir jantar. Quando ela se juntou ao Magic Bus, ela “nunca abria a boca”, lembra o jovem tutor Raskar. “Devagar, nós construímos sua confiança. Demos responsabilidade a ela, apontando-a capitã do time. Hoje ela está completamente mudada.”

Hoje Reema vai à escola regularmente e tem uma saúde melhor. Ainda mais importante é o fato de que ela está despreocupada e vislumbra um futuro esperançoso para si. A forma como essas meninas são tratadas por suas comunidades está começando a mudar, o que se vê pela maior aceitação da importância da educação escolar e de não casarem quando ainda são muito jovens.

 

“Estas meninas estão atentas agora, elas estão empoderadas”, diz Shesha “elas vão ascender por conta própria e tomar decisões conscientes em suas vidas.”