A luta contra políticos desonestos como exemplo de cidadania

No Paraguai, a frase “Eu tenho um amigo” é proferida com excessiva frequência, normalmente acompanhada de uma piscadela e um aceno de cabeça.  Essa é, na maioria das vezes, uma indicação de que alguém com poder  irá se prontificar a burlar a lei.  A palavra  que define essa atitude chama-se corrupção, algo que  o Paraguai  já viu muito : a ONU já rotulou o  país como um dos  mais corruptos da América Latina. Mas  a corrupção ocorre muito menos atualmente, graças a três cidadãos que decidiram que já tinham  visto o suficiente.

No início dos anos 90, Carlos Bareiro e dois colegas criaram um grupo cidadão em sua cidade, fizeram reclamações e  conseguiram  remover o mandato de um governador desonesto. Eles ajudaram a fundar outro grupo em outra cidade pequena, e depois ajudaram a criar um grupo na capital, Assunção.

Seu exemplo inspirou outros 15 grupos e em um ano eles haviam formado uma rede de grupos de vigilância cidadã,  as Controladorías  Ciudadanas. Hoje, existem mais de 70 grupos em todo o Paraguai, representando cada uma das províncias. Os resultados têm  sido significativos: a remoção de 20 prefeitos, a punição de 4 membros do parlamento e a demissão de mais de 100 funcionários públicos corruptos.

A constituição do Paraguai declara que “a soberania reside nas pessoas”, mas as pessoas precisam desejar exercer seus direitos e deveres como cidadãos, explica Bareiro. Fome de poder é a principal acusada em uma cultura que perdoa a corrupção, mas a apatia dos cidadãos também deve ser apontada como uma das causas desse mal.

“Quando os paraguaios terminam o ensino médio e a universidade, eles não sabem o que significa ser um cidadão”, ele conta. Cada ato de corrupção é um crime contra o interesse comum. “Nosso trabalho é ajudá-los a entender que eles são responsáveis por controlar e gerir  [os interesses comuns]”.

Os grupos compartilham informação sobre como apresentar queixas criminais  contra a corrupção e ajudam-se mutuamente a conseguir que a imprensa publique notícias sobre oficiais corruptos. A vergonha pública é uma ferramenta poderosa para a prevenção, explica Bareiro, “cria o medo de cometer atos de corrupção”.

Se eles buscam envergonhar o comportamento ruim,  também trabalham para dar destaque ao bom. Grupos de vigilância podem fazer poderosas declarações coletivas de apoio a políticos e juízes que demonstram integridade. Arnaldo Giuzzio é um procurador distrital cuja vida foi ameaçada após ele ter começado a investigar denúncias de corrupção. Membros organizaram marchas em seu apoio e juntaram recursos para  publicar anúncios  em jornais, atestando sua honestidade e coragem.

“O controle cidadão muda a cultura, o que é importante”, diz Bareiro, “quando existe controle cidadão , a corrupção diminui”.

A rede The Citizen Watchdogs  pretende se expandir para todas as cidades do país e  manter  os oficiais sob pressão para  que estes se mantenham honestos. Alguns se perguntam se um grupo que ganhou tanto poder a ponto de expulsar tantos funcionários públicos e governantes não corre o risco de se tornar um poder corruptível também. Como eles garantem não usar seu poder para seus próprios interesses políticos?