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Mudando o Mundo 101
Uma entrevista com David Bornstein, autor do livro “Como mudar o mundo: Empreendedores Sociais e o Poder das Novas Idéias”. Bornstein compartilha seus pensamentos sobre por que tantas idéias geniais são pouco conhecidas, sobre como todo mundo tem a habilidade de ser um agente de mudança e sobre as histórias que mais o inspiraram.
Changemakers: A imprensa tem sido lenta em se atualizar a respeito das mudanças sociais através do empreendedorismo. Por exemplo, você ressalta que a maioria dos americanos reconhece o nome de Jack Welch, o antigo CEO da empresa General Electric, mas somente 1 em cada mil identifica Jim Grant, apesar do fato de ele ser listado na Enciclopédia Britannia como um homem cujo trabalho foi fundamental para salvar 25 milhões de vidas de crianças.
David Bornstein: Qual a imagem do mundo que uma pessoa, em geral, apreende? Você poderia ler os jornais todos os dias por 10 ou 15 anos ou assistir ao noticiário da noite e não ter a menor idéia de que qualquer dessas coisas está acontecendo. Mas você certamente pensaria: “Bem, existe um monte de terroristas lá fora e uma montanha de crimes e corrupção”.
Então, quando você traz a público as histórias de empreendedores sociais, pessoas sendo realmente bem sucedidas em dar escala a mudanças positivas, as pessoas são inicialmente um pouco céticas. Mas quando elas superam o ceticismo, o que se segue é normalmente excitação e intensa curiosidade, porque o crescimento gigantesco do empreendedorismo social, que ainda é muito novo, pode fazer com que você questione sua visão de que o mundo está se tornando mais perigoso, ou injusto, e de que está com certeza rumando para a direção errada.
Muitas pessoas não sabem do fato de que existem milhões de empreendedores sociais ao redor do mundo que estão construindo organizações e que a vanguarda desses empreendedores está causando mudança sistêmica genuína.
Neste ponto, alguns irão parar e dizer algo como “Você sabe, meu amigo Joe está fazendo isso. Eu nunca pensei nele como um empreendedor social, mas eu acho que ele é um” ou “Engraçado. Eu tinha essa ideia em algum lugar da minha mente pelos últimos cinco anos e sempre pensei sobre ela, mas eu nunca achei que pudesse realizá-la de fato ”.
Em alguns casos, eles vão além: “Eu tenho esta idéia. Eu escrevi uma proposta. Eu tenho uma planilha com o orçamento e eu estava somente esperando pela hora certa na minha vida para ir adiante com ela”. Você percebe que as pessoas estão pensando coisas nessa linha, mas elas não sabem que existe esse movimento, como um grande navio – o setor social – para onde podem dirigir seus barcos.CM: Qualquer um pode ser um empreendedor social?
DB: Pode ser muito intimidante pensar em você mesmo como um empreendedor social se você se comparar com os Bill Drayton e Muhammad Yunus do mundo. Mas você tem que lembrar: esses caras começaram muito pequenos. A maioria dos empreendedores sociais começa com uma intervenção muito simples e não planejada, ajudando uma criança de rua ou uma criança portadora de deficiência. Muhammad Yunus começou com sete tomadores de empréstimo em uma vila. Bill Drayton começou com dois empreendedores sociais da Ashoka na Índia em 1982. 
Existem muitas maneiras diferentes pelas quais uma pessoa pode participar desse setor emergente. Isto é que é tão maravilhoso: porque esse setor agora precisa de talentos de pessoas com todas as diferentes trajetórias de vida, com diversos temperamentos e habilidades.
Assim como não é todo mundo que começa um negócio, não é todo mundo que quer começar uma organização. Existem muitas pessoas que adoram apoiar empreendedores sociais, elas são apaixonadas por defender a causa, escrever sobre eles (como eu) ou criar arte sobre eles. Eu espero ver mais sobre isso em trabalhos de televisão e documentários, e talvez alguma pintura de empreendedores sociais algum dia! E claro, você tem o espectro muito maior de pessoas que têm habilidades em computação, ou administração, ou comunicação, ou qualquer um dos serviços de apoio que essas organizações precisam para serem efetivas e crescerem.
CM: Existem histórias que acabaram não entrando no livro?
DB: Eu entrevistei mais de 100 pessoas para esse livro, e existem tantas histórias maravilhosas que eu não tive a oportunidade de incluir. Uma pessoa que não sai da minha mente é Agnes Gereb, que eu entrevistei na Hungria. Ela está promovendo a ideia do parto natural (sem intervenções externas) na Hungria, fazendo dessa uma opção para as mulheres naquela sociedade.
Não é o tipo de coisa que você imaginaria quando pensa nos grandes desafios globais que enfrentamos: pobreza, questões ambientais, doenças. Mas eu acho que o trabalho dela é muito importante. Minha mulher teve um parto natural e eu acho que uma sociedade em que essa opção não está disponível ou não é conhecida, ou é até ilegal, é uma sociedade ainda não totalmente aberta. Eu adoraria ter podido incluir seu trabalho.
Na outra ponta da vida, Maria de Lourdes Braz também está lidando com um problema que recebe pouca atenção. Ela está trabalhando para ajudar famílias pobres em favelas do Rio de Janeiro para que elas não tenham que mandar seus pais idosos para asilos públicos. Ela fundou sua organização na favela da Cidade de Deus, no Rio, onde foi feito o filme de mesmo nome. Ela foi para a comunidade e criou uma espécie de creche para adultos no meio da favela. Conseguiu uma casa, pessoas da comunidade para fazer as refeições, dar aulas de música, entre outras coisas.
Então, essas são histórias sobre uma pessoa que está lidando com o começo da vida e outra que está lidando com o fim dela. Entre elas, existem muitas, muitas outras pessoas que estão também fazendo trabalhos comoventes, mas que infelizmente eu não pude incluir no livro. Espero que eu consiga utilizar essas histórias em outros textos, em livros ou artigos.
CM: Você teve tantas experiências enquanto preparava esse livro, houve momentos que tiveram um impacto especial sobre você?
DB: O momento mais emocionante que eu tive enquanto escrevia o livro aconteceu quando estava trabalhando na história de Erzsébet Szekeres na Hungria, que é descrita em um dos capítulos . Ela criou organizações para pessoas com deficiências múltiplas por toda a Hungria.

Para ter uma perspectiva de seu trabalho, fui visitar uma instituição gerida pelo Estado fora de Budapeste. É o tipo de lugar em que as pessoas parecem mortas-vivas. É um lugar tão horrível, as pessoas estão sempre vestindo pijamas e não recebem atenção. Elas andam como zumbis. Em alguns casos, essas pessoas vêm vivendo em uma instituição por décadas.
Conheci um homem que era mantido, literalmente, em uma gaiola. Outro foi enfaixado como uma múmia porque não parava de se arranhar. Outro parecia um gafanhoto, ele era só pele e ossos. Ele deitava na cama, com os joelhos contra seu peito. Ele só ficava tremendo. Era como um esqueleto. Ele nunca era levado para fora. Não recebia tratamento fisioterápico. Isso me evocou imagens de lugares horríveis onde se faziam testes em seres humanos.
Cerca de 45 minutos depois, cheguei no centro de Erzsévet, que fica ao norte de Budapeste. Eu entrei e foi surpreendente. Era um dia ensolarado - ela tem um átrio grande. O sol entrava. Eu conseguia ver um campo dourado de trigo do lado de fora.
Três portadores de deficiência passaram por mim vestindo jeans e camisetas. Eles estavam tendo uma conversa animada. Era possível ouvir música de estações de rádio.
Eu andei por ali e olhei para as oficinas e vi pessoas ocupadas trabalhando. Havia pessoas almoçando no restaurante, que parece um pub. Enquanto tomava notas, alguém trombou em mim, estava levando altofalantes para a discoteca.
Foi tão comovente, porque eu tive um completo entendimento do que um empreendedor social pode fazer. Criar um novo mundo. Essas pessoas não tinham deficiências mais leves do que as pessoas na instituição pública, mas elas eram tratados como seres humanos. Você poderia entender que se essa mulher, Erzsébet Szekeres, nunca tivesse nascido, todas aquelas pessoas estariam largadas em instituições. Tive a sensação da beleza que essas pessoas podem trazer para o mundo.

