Um santuário na base do mundo

Fotos de Lucas Chiappe

Não tem sido difícil obter a  colaboração de múltiplos países em questões ambientais. De que formas a criação de um “santuário internacional” pode  servir para gerir nossas atuais relações globais?

Lucas Chiappe, ativista ecológico, agricultor e fotógrafo da espetacular região da patagônia argentina, está liderando uma coalizão internacional com uma visão arrojada: criar um santuário que engloba a base do planeta para preservar as florestas das regiões mais ao sul  da Terra. O Gondwana Forest Sanctuary é o primeiro plano para conservar milhões de acres de florestas em quatro países.

O Santuário abrigará florestas tropicais subantarticas protegidas que são os mais antigos e mais raros ecossistemas temperados do hemisfério sul. Entre 500 e 140 milhões de anos atrás, América do Sul, Austrália, Nova Zelândia e Antártica formavam um único supercontinente chamado Gondwana. As placas tectônicas causaram a partição de Gondwana, espalhando um ecossistema de florestas de faia  entre regiões ao sul dos atuais territórios do Chile, Argentina, Nova Zelândia, Austrália e África do Sul.

Somente sete exemplos desse  ecossistema  existem hoje, representando menos de um por cento das florestas do mundo. Apesar de ser uma das mais antigas e frágeis florestas sobreviventes da terra, há falta de conhecimento quanto ao seu papel crítico  na biodiversidade, o que as torna mais vulneráveis  às corporações multinacionais que ameaçam destruí-las para fabricar papel e papelão. 

O impulso por trás do Gondwana Forest Sanctuary  surgiu quando Chiappe se mudou para o belo Vale do Epuyén no norte dos Andes patagônicos em 1976,  tendo fundado, 14 anos depois,  o Projeto Lemu para promover a proteção das florestas nativas remanescentes no vale. O projeto se expandiu para a promoção da cooperação interagências e de reformas legais necessárias para criar e fortalecer áreas protegidas. Muito do sucesso deve-se à criação de grupos locais independentes e autossustentáveis que trabalham para espalhar as idéias na base.

Funcionários visitam vários locais na região e  exibem vídeos, organizam palestras e oficinas e promovem apresentações. Durante essas visitas, Chiappe e seus associados facilitam a criação de  pequenos grupos de entusiastas comprometidos com a causa da proteção ambiental.  Isso depois se expande em grupos e ações maiores para disseminar a missão do Projeto Lemu.

Chiappe e sua equipe levaram anos lutando contra fortes interesses financeiros e políticos no Vale do Epuyén. Depois que atividades de madeireiras derrubaram 1.500 árvores em uma das últimas florestas virgens de Cerro Pirque, causando erosões severas do solo e um incêndio devastador, o governo abrandou sua resistência e permitiu uma investigação exaustiva. Revogou os direitos das madeireiras e afinal autorizou a criação do Cerro Pirque Provincial Park, o primeiro parque provincial no noroeste da Patagônia.

Ao participar de uma conferência organizada pela The Native Forest Network em Montana, Chiappe  conheceu estratégias de conservação de vanguarda, como a interconexão do Parque Nacional com corredores biológicos desenhados para salvar espécies que migram em longas distâncias. Logo depois, ele uniu forças com a colega Malu Sierra, Diretora do Defenders of the Children Forest, para lançar uma campanha para a criação do Gondwana Forest Sanctuary.

 

Em 1998, Chiappe ajudou a organizar um encontro  entre representantes da Argentina, Chile, Austrália  e Nova Zelândia. Eles se encontraram no Chile para planejar, para o Gondwana Forest Sanctuary, a campanha de combate às imensas operações de extração de madeira e mineração que vinham ocorrendo em florestas nativas. Usando uma abordagem intercontinental, a Campanha Gondwana promove “uma maior ética do orgulho em, respeito por e conservação de uma floresta única no hemisfério sul.

 

Aqueles que apoiam o Gondwana Forest Sanctuary vislumbram uma área comum global para a floresta nativa localizada mais ao sul do mundo. Ao proteger, reconectar e restaurar a vida das florestas Gondwannic mais ao sul, um santuário internacional dá às comunidades locais, nacional e internacional um novo modelo de como os seres humanos podem se relacionar com a terra.

 

“Eu realmente acredito que a criação deste santuário internacional é uma oportunidade para nos comprometermos com a proteção de uma das mais frágeis biodiversidades da terra – não somente para os quatro países envolvidos – mas para o bem da humanidade”, explica, “Este é o mais precioso patrimônio que podemos deixar para as próximas gerações”.

 

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