Uma nova língua para salvar terras: o “corporativês”.

Escrito por Carol Salguero

Para povos indígenas no Peru, cuidar bem da floresta  significou, por milhares de anos, falar a língua dos animais e das plantas, e  conhecer as nuances de sua interdependência. Atualmente, cuidar da floresta significa falar também a língua dos executivos do petróleo e dos oficiais de ministérios , e  conhecer bem as nuances da legislação fundiária.
 
Ajudar povos indígenas a entender e desenvolver a língua praticamente impenetrável das corporações sem  deixar de lado a sua língua anterior tem sido a missão de vida de Pedro Garcia.
 
Garcia chegou pela primeira vez ao Peru em 1970, com amigos, fugindo da ditadura de Francisco Franco na Espanha. Mas enquanto seus amigos foram  impelidos a voltar para casa pelos desconfortos da floresta tropical,  entre eles morcegos raivosos, Garcia ficou. Ele ajudou duas tribos a estabelecerem um mercado e um centro de saúde, mas seu primeiro grande feito, segundo ele, foi garantir a eles a propriedade legal do vale onde viviam.
 
Grupos indígenas na Amazônia enfrentam ameaças a suas terras vindas de todas as direções. A superocupação de outras áreas do Peru empurra agricultores e pecuaristas para as terras da floresta, que uma vez desmatada, degrada rapidamente. Uma ameaça ainda maior veio da necessidade do governo por petróleo, gás e subprodutos de madeira para abastecer o desenvolvimento econômico peruano.

“Uma pessoa sem terra é uma pessoa sem vida”, diz Edwin Vasquez, membro da tribo Ashanika. Os Ashanika são um dos 66 grupos nativos restantes que por milênios se consideraram guardiões da Amazônia.

Apesar de o governo ter reconhecido desde os anos 70 que certos territórios pertencem às tribos indígenas,  isso  na prática não impediu madeireiros e empresas petroleiras de derrubar a floresta de forma imprudente, poluir os recursos naturais e colocar a saúde das pessoas em risco. O impacto dessa ação  alcançou também a cultura tradicional , talvez com resultados  ainda mais devastadores.

“A chave para se defender é aprender como negociar”, conclui Garcia. Quando se trata de lutar por seu direito à terra, “(os povos indígenas)  têm que estar preparados para entrar na arena do debate e não simplesmente contar com especialistas aliados  à causa indígena”. Negociação significa navegar a fronteira entre a lei internacional, que reconhece de forma ampla os direitos culturais indígenas, e a lei nacional, que enfraquece  esses mesmos direitos.

Em 1995, Garcia criou o Racimos de Unguahul,  com o objetivo de capacitar grupos indígenas  para a negociação efetiva. Dominar o vocabulário e os conceitos utilizados pelos oficiais do governo e das empresas em discussões técnicas não é fácil. Para pessoas sem educação formal, que nunca tiveram acesso a rádio ou televisão, é um salto para outro mundo. Garcia desenvolveu duas semanas de oficinas para grupos por toda a selva que combinavam dinâmicas de grupo e outras estratégias para ajudá-los a dominar os conceitos técnicos.

Ele  também levou  os participantes do workshop para locais no Peru ou no Equador onde a extração de petróleo vinha ocorrendo  há 20 anos “para que pudessem ver a devastação com seus próprios olhos”.

 “Inicialmente nós não sabíamos por onde começar”, conta Edwin Vasquez, líder de um grupo indígena que participou das oficinas.
 
Hoje,  essas oficinas já apresentam resultados.  Um número cada vez maior de terras reclamadas pelos nativos  é regulamento e garantido por documentação oficial . Empresas que antes precisavam somente da permissão do governo agora são obrigadas a obter um contrato assinado por uma organização indígena reconhecida, por exemplo.

 Em 2006, teve  início o primeiro  processo judicial por poluição ambiental, de uma tribo peruana contra uma empresa petroleira que causou à população local aumento dos  níveis de cádmio e chumbo no sangue e contaminou a água,  provocando o desaparecimento de vida animal. A empresa petroleira concordou com as novas diretrizes de injetar a maior parte de seus resíduos de volta no solo, onde  deixam de ser uma ameaça tóxica imediata.
O trabalho continua. Os povos indígenas  tomaram o microfone e os grupos poderosos que ameaçam seus direitos fundiários estão finalmente sentando para ouvi-los.

Comentário do autor: mesmo que novas explorações por empresas petroleiras não ignorem os direitos fundiários dos povos indígenas, o que fazer com o efeito que  as atualmente existentes têm sobre a cultura, quando os jovens deixam suas vilas para trabalhar nelas? Por milênios os povos indígenas cuidaram da floresta porque sua sobrevivência dependia dela. Quando as empresas petroleiras oferecem bens e dinheiro, como pode  essa cultura (e o conhecimento por ela cultivado) sobreviver?
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